Planeje seus estudos com prática de recuperação e revisões espaçadas
Em vez de passar o tempo apenas relendo, feche o material, tente responder de memória, confira a resposta e tente de novo alguns dias depois. Este guia apresenta um procedimento prático para combinar prática de recuperação e revisões espaçadas, maneiras de lidar com conteúdos ainda não compreendidos e um exemplo ajustável de duas semanas. Os intervalos são um ponto de partida, não um cronograma ideal único estabelecido por pesquisas.
A resposta curta
Ao revisar algo que você aprendeu, primeiro feche o material e tente explicar o conteúdo ou resolver um problema de memória. Depois confira a resposta, corrija os erros e tente recuperá-la novamente alguns dias depois. Assim, fica mais fácil distinguir entre “isso parece familiar, então acho que sei” e realmente conseguir montar uma resposta de memória.
Prática de recuperação é tentar trazer da memória informações que você estudou. Revisão espaçada é praticar o mesmo conteúdo novamente depois de algum tempo, em vez de repetir tudo de uma vez. Na prática, combine as duas. Isso não garante o mesmo benefício para todas as pessoas, matérias ou situações. Dunlosky e colegas revisaram pesquisas sobre 10 técnicas de aprendizagem e avaliaram testes de prática e prática distribuída como métodos de alta utilidade, considerando também o alcance dos efeitos e as condições de aprendizagem (Dunlosky et al., 2013).
Por que não apenas reler?
Durante a leitura, as frases podem ficar familiares e dar a impressão de que você conhece o conteúdo. Mas tentar explicá-lo sem consultar o material revela quais partes você não lembra. Nos experimentos de Roediger e Karpicke, universitários leram textos científicos e depois releram o material ou fizeram um teste escrevendo o que conseguiam recordar. No teste após 5 minutos, a condição de releitura teve desempenho melhor; depois de 2 dias e 1 semana, os estudantes que fizeram o teste de recuperação lembraram mais. Esses resultados vieram dos textos, participantes e condições daqueles experimentos; não significam que os mesmos números se apliquem a toda situação de aprendizagem (Roediger & Karpicke, 2006).
Revisar com intervalos é diferente de concentrar todas as revisões em uma sessão. Cepeda e colegas sintetizaram 317 experimentos sobre tarefas de recordação verbal e relataram que o intervalo entre sessões de estudo e o tempo até o teste final se relacionam conjuntamente aos resultados de memória. Intervalos maiores às vezes ajudam quando é preciso lembrar por mais tempo, mas o artigo não define um único intervalo ideal para todas as pessoas (Cepeda et al., 2006). Portanto, o cronograma abaixo é um ponto de partida para ajustar à sua carga de estudo e ao que você consegue recordar, não uma resposta definitiva da pesquisa.
Exemplo: aprender um novo procedimento de trabalho
Imagine que você está aprendendo um procedimento interno para receber solicitações de clientes e encaminhá-las à pessoa responsável. Este é um exemplo de planejamento de estudo criado para aplicar a prática de recuperação; não é um resultado de participantes de pesquisa realizando a mesma tarefa.
**Consulte o material uma vez e entenda o essencial.** No documento do procedimento, encontre os dados a coletar, os critérios de urgência e o caminho de encaminhamento. Primeiro entenda por que cada etapa é necessária, em vez de tentar memorizar o texto exato logo de início.
**Feche o material e reconstrua a sequência.** Em uma folha em branco ou anotação, escreva: “Quando uma solicitação chega, o que devo verificar e, em cada caso, para quem devo encaminhá-la?”. Tente lembrar as etapas principais e os critérios de decisão, não as palavras exatas.
**Confira a resposta.** Abra a fonte novamente e marque com outra cor os itens que faltaram ou os critérios que você lembrou incorretamente. Inclua uma etapa para conferir os critérios corretos e não repetir uma resposta errada sem corrigi-la. A revisão de Dunlosky e colegas também conclui que dar feedback com a resposta correta em testes de prática pode ajudar a aprendizagem e reduzir o risco de respostas erradas se consolidarem ([Dunlosky et al., 2013](https://gwern.net/doc/psychology/spaced-repetition/2013-dunlosky.pdf)).
**Responda novamente depois e aplique a um caso real.** Na próxima revisão, responda à mesma pergunta e depois resolva uma situação curta com condições diferentes, como uma solicitação urgente ou informações incompletas. Lembrar o procedimento e tomar uma decisão real no trabalho podem ser coisas diferentes; por isso, questões de aplicação são um exercício complementar para verificar a compreensão.
A prática de recuperação não exige uma prova em papel nem um aplicativo. Escrever em uma folha em branco, explicar em voz alta com o livro fechado, responder a cartões de perguntas ou resolver um problema e explicar o raciocínio também são formas de praticar a recuperação. Ler a resposta enquanto olha para o material pode servir para conferir e estudar novamente, mas não é o mesmo que tentar recuperá-la da memória.
Pré-requisitos e etapas
Pré-requisito: Escolha um objetivo de revisão pequeno e específico. Em vez de uma unidade inteira, escolha algo observável como “consigo citar três causas”, “consigo reproduzir a sequência do procedimento” ou “consigo resolver esse tipo de problema”. Prepare também uma fonte para conferir as respostas. Escolha uma referência, como anotações da aula, respostas do livro ou um documento oficial do procedimento.
Primeira sessão de estudo: Estude o conteúdo-alvo por cerca de 20 a 40 minutos. É apenas um exemplo; ajuste à quantidade de conteúdo e ao tempo em que consegue se concentrar. Marque termos ou premissas que não entender e esclareça-os primeiro. Não tente decorar sem pensar um conteúdo que ainda não compreendeu.
Primeira recuperação: Feche o material e passe de 3 a 5 minutos escrevendo ou falando os pontos principais. Uma tentativa curta está bem. O objetivo não é lembrar todas as respostas perfeitamente de uma vez, e sim descobrir o que você consegue recordar agora.
Confira e corrija: Abra o material novamente, confira o que estava errado ou faltando e reformule uma vez a explicação correta com suas próprias palavras. Se descobrir que tinha certeza de uma resposta, mas ela estava errada, coloque esse item no topo da lista de revisão.
Agende a próxima revisão: Marque no calendário ou em uma lista quando verificar novamente, por exemplo, no dia seguinte, alguns dias depois e na semana seguinte. Se conseguir explicar corretamente as etapas principais e os motivos sem dicas, tente aumentar um pouco o próximo intervalo. Se deixar de fora um item importante ou precisar de uma dica para responder, encurte o intervalo ou estude o material novamente primeiro. Esse é um critério prático para ajustar o plano com base nos registros de estudo, não uma fórmula validada de intervalo ideal. Ajuste o cronograma ao que você lembra, à data da prova ou ao momento em que precisará do conteúdo no trabalho.
O que esperar e como acompanhar: No começo, buscar na memória pode ser menos confortável do que ler, ou fazer você sentir que sabe menos do que antes. A prática de recuperação serve para conferir o que você lembra no momento, não para gerar uma sensação de conforto. Para acompanhar o progresso sem exageros, anote brevemente a data, se acertou, onde teve dificuldade e se conseguiu aplicar o conteúdo a um problema real. Depois de duas semanas, veja se consegue responder às perguntas originais ou a novas perguntas semelhantes. Este plano em si não foi testado como intervenção nem teve seu efeito de aprendizagem medido.
Se travar: Se nada vier à memória, não continue chutando por muito tempo. Veja uma pequena dica, feche o material de novo e tente explicar. Se errar um problema, consulte a resolução, explique com suas palavras por que aquela resposta está correta e tente novamente mais tarde. Se tiver criado cartões demais, mantenha primeiro os conceitos essenciais e os procedimentos usados com frequência. Para um tema complexo que você não consegue entender apenas com a recuperação, estude novamente a explicação ou os exemplos e crie perguntas de recuperação depois de entendê-los.
Exemplo ajustável de cronograma para duas semanas
O cronograma abaixo é um exemplo para revisar um conjunto de objetivos de aprendizagem. As datas são intervalos de prática convenientes, não um cronograma ideal único definido pela pesquisa. Se estiver estudando vários assuntos ao mesmo tempo, divida cada um em pequenos conjuntos e registre cada cronograma separadamente.
| Quando | O que fazer | O que conferir |
|---|---|---|
| Dia 1 | Entenda o conteúdo e crie de 3 a 5 perguntas. Feche o material e tente a primeira recuperação. | As perguntas verificam diretamente o objetivo? Você conferiu as respostas? |
| Dia 2 | Responda às mesmas perguntas novamente e corrija os itens errados. | Diferencie reconhecer a formulação vista ontem de responder de memória. |
| Dia 4 | Responda às perguntas e depois resolva uma situação nova curta ou um problema. | Você consegue aplicar o que lembrou a uma situação? |
| Dia 8 | Explique o essencial ou resolva um problema sem consultar o material primeiro. | Registre onde travou e estude novamente apenas essa parte. |
| Dia 14 | Confira o mesmo objetivo novamente e decida se precisa de outra revisão. | Se explicar o essencial e os motivos sem dicas, tente aumentar o intervalo; se houver omissões ou erros, acrescente um intervalo menor. |
Se perder um dia programado, não precisa recomeçar. Faça hoje uma recuperação curta, registre como foi e escolha uma próxima data realista. Se houver pouco tempo para revisar, priorize os objetivos principais e os itens que continuam difíceis em vez de tratar tudo igualmente. Antes de uma prova, você pode reler ou organizar o conteúdo conforme necessário, mas isso por si só não confirma a lembrança de longo prazo.
Referências
[Dunlosky et al. (2013), revisão de 10 técnicas de aprendizagem](https://gwern.net/doc/psychology/spaced-repetition/2013-dunlosky.pdf) — Analisa a utilidade, as condições de implementação e as limitações de testes de prática e prática distribuída.
[Roediger & Karpicke (2006), experimentos sobre testes de recuperação e memória de longo prazo](https://learninglab.psych.purdue.edu/downloads/2006/2006_Roediger_Karpicke_PsychSci.pdf) — Apresenta dois experimentos com textos científicos e avaliações após 5 minutos, 2 dias e 1 semana.
[Cepeda et al. (2006), metanálise da prática distribuída em tarefas de recordação verbal](https://escholarship.org/uc/item/3rr6q10c) — Analisa 317 experimentos e a relação entre intervalos de estudo e o tempo até o teste final.